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A corda que estiquei mais um pouco

Sérgio Longo24 de julho de 20265 min de leitura

Faz quatro semanas que contei aqui o teste do São João, quando deixei a IA trabalhando sozinha no escritório durante a semana curta de feriado e só apareci na sexta para revisar, protocolar e enviar. Na época, terminei o texto dizendo que dava para ir além, que autonomia se conquista em camadas e que eu tinha saído convencido de esticar mais a corda. Muita gente me perguntou, na DM e nos comentários, se aquilo tinha sido sorte de uma semana atípica ou se virou rotina. A resposta honesta é que virou rotina, e foi justamente por virar rotina que aprendi o que o feriado tinha escondido de mim.

O que numa semana é aventura, no mês vira sistema

O teste do São João funcionou em parte porque era exceção. Uma semana, prazos suspensos, pouca coisa realmente crítica em jogo. É fácil ser corajoso quando o risco está baixo. O desafio de verdade apareceu quando tentei transformar aquele arranjo de emergência em modo padrão de trabalho, semana após semana, com processo urgente, cliente ansioso e prazo correndo de verdade.

E aqui está a primeira lição das últimas quatro semanas. Autonomia que você concede no improviso é uma coisa. Autonomia que vira sistema é outra, porque ela precisa aguentar o dia ruim, não só o feriado tranquilo. O que me obrigou a parar de tratar as regras como um acordo informal comigo mesmo e começar a escrevê-las de verdade.

O que passei a delegar com mais liberdade

Nessas quatro semanas, três coisas subiram de nível na corda.

A triagem das publicações e intimações, que antes vinha como um resumo para eu decidir, passou a incluir uma sugestão de encaminhamento para cada item. A IA não só me diz o que chegou, ela propõe o que fazer com aquilo, e na maioria dos casos eu só confirmo. O julgamento continua meu, mas ele ficou mais rápido, porque parte da análise já vem mastigada.

A minuta das peças repetitivas deixou de esperar a minha revisão item a item. Para um conjunto específico de peças de baixa complexidade, que eu mapeei com cuidado, a IA agora monta a versão final seguindo meus modelos e me entrega pronta para uma leitura única de conferência, não mais para uma reconstrução. Reduzi o meu tempo por peça, mas mantive a leitura final, sempre.

O acompanhamento de clientes ganhou uma régua. Perguntas simples e recorrentes, aquelas cuja resposta já está definida e não muda o rumo do caso, passaram a ser respondidas com um modelo que eu aprovei antes, sem eu precisar autorizar uma a uma. Ganhei silêncio no celular sem perder o controle do conteúdo.

As regras novas que o mês me obrigou a criar

Se eu disser que só ampliei, estou mentindo. Para dar mais corda em alguns pontos, tive que apertar o nó em outros. Foram três regras que não existiam no São João e que passaram a existir depois.

A primeira é a regra do valor em jogo. Nenhuma autonomia ampliada vale para caso acima de um certo patamar de risco, financeiro ou reputacional. Ali, tudo volta para revisão manual completa, ponto a ponto, como era antes. Liberdade é para o volume, não para a exceção crítica.

A segunda é a regra do registro. Toda ação que a IA executa sozinha fica registrada, com data, conteúdo e a regra que autorizou. Não é burocracia, é a minha rede de segurança. Se algo sair errado, eu preciso conseguir voltar no rastro e entender onde a linha foi cruzada, para corrigir a regra e não só o erro pontual.

A terceira é a regra da parada obrigatória. Sempre que a IA encontra algo fora do padrão que ela conhece, um documento estranho, uma tese nova, um cliente pedindo o que não estava previsto, ela para e me chama, em vez de tentar resolver por conta. Autonomia não é a máquina se virar no escuro. É ela saber exatamente onde acende a luz e me chama.

O que deu certo e o que precisou de ajuste

O que deu certo foi maior do que eu esperava. O tempo que eu recuperei parou de ser um evento de feriado e virou uma constante da semana. Sobrou cabeça para o que só o advogado faz, a estratégia, a conversa difícil com o cliente, a tese que exige repertório e faro, e não fórmula.

O que precisou de ajuste também foi honesto. Numa das semanas, a IA seguiu por um caminho padrão numa peça em que o caso pedia algo mais fino, e eu só peguei na leitura final. Ninguém saiu prejudicado, porque a leitura final existe justamente para isso. Mas me lembrou de uma coisa que eu não posso esquecer nunca: a última revisão não é um luxo que dá para cortar quando o dia aperta. Ela é o que separa autonomia de imprudência. No dia em que eu pular a leitura final para ganhar dez minutos, eu deixei de dar corda e passei a soltar a coleira.

A corda continua na minha mão

Quatro semanas depois, a fábula de emancipação segue firme, e com um detalhe ainda mais claro do que no São João. A IA não ganhou liberdade para me substituir. Ela ganhou liberdade para carregar mais peso do braço, enquanto eu carrego, sozinho e por inteiro, a cabeça. A cada camada que eu solto, eu não solto o julgamento. Eu solto a execução do julgamento, e ainda assim só depois de conferir.

E é por isso que insisto que isso não é sorte nem talento, é método. A diferença entre um escritório que a IA acelera e um escritório que a IA coloca em risco não está na ferramenta que os dois usam, está nas regras que um definiu e o outro não. Dá para montar esse fluxo no seu escritório, com regras claras de valor em jogo, registro, parada obrigatória e revisão final, de forma que você amplie a corda sem nunca largar a coleira.

Sérgio Longo · OAB/PE 22.386 · Leia online e veja os outros artigos em sergiolongo.netlify.app/artigos