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Da mesa do G7 à sua terça-feira: o que a IA virou — e o que isso muda na sua rotina agora

Sérgio Longo19 de junho de 20265 min de leitura

Na semana passada, em Évian, aconteceu algo que merece a atenção de quem trabalha com Direito — mesmo que pareça distante do seu dia a dia. No G7, a cúpula das maiores economias do planeta, a inteligência artificial foi o tema central do encontro. E não só como assunto de pauta: os comandantes das três maiores empresas de IA do mundo — OpenAI, Anthropic e Google DeepMind — sentaram-se à mesa com chefes de Estado. Uma reportagem resumiu a cena em uma frase: "um sinal de onde o poder está hoje".

Pare um segundo nisso. Há três anos, essas empresas vendiam um chatbot que escrevia e-mails. Hoje seus fundadores almoçam com presidentes para discutir soberania, segurança nacional e o futuro da economia. Quando uma tecnologia sai da aba do navegador e vai para a mesa do G7, ela está dizendo uma coisa, alta e clara: não é moda, é infraestrutura. Vai pesar — no país, na empresa e, sim, na sua terça-feira.

E é exatamente para a sua terça-feira que eu quero trazer essa conversa. Porque, enquanto a geopolítica acontecia em Évian, as próprias ferramentas mudaram de natureza nas últimas semanas. Quem ainda usa IA como "um ChatGPT para escrever melhor" está usando a versão 2023 de uma tecnologia que já virou outra coisa. Deixe-me mostrar três mudanças concretas — em Claude, ChatGPT e Gemini — e o que fazer com cada uma.

Mudança 1: a IA deixou de responder e passou a executar

Esta é a virada que vários veículos já apelidaram de "o fim da era do chatbot". Até pouco tempo, a IA respondia: você perguntava, ela devolvia um texto, e o trabalho de fazer algo com aquilo era todo seu. Agora ela age. Encadeia tarefas: pesquisa, analisa, redige uma minuta, organiza os arquivos em pastas, prepara o e-mail. As três ferramentas caminham para isso — o Claude com acesso direto ao seu sistema de arquivos, o ChatGPT com integração ao e-mail, o Gemini agindo sobre agenda e caixa de entrada.

O que isso muda no escritório: você para de pedir "me ajuda a escrever" e passa a delegar um processo inteiro. "Leia estes três documentos, identifique as cláusulas de rescisão, monte uma tabela comparando e salve um resumo na pasta do cliente." Deixa de ser uma conversa e vira uma tarefa entregue. O risco, claro, sobe na mesma proporção do poder — um agente que age sozinho exige regras claras sobre o que ele pode tocar, onde e com quais dados. Mas a direção é irreversível: o advogado deixa de ser quem digita e passa a ser quem coordena.

Mudança 2: agora cabe o processo inteiro

Durante anos, o grande limite da IA jurídica foi a memória curta: ela só "enxergava" alguns trechos por vez. Esse teto explodiu. Os modelos de fronteira hoje processam de um a um milhão e meio de tokens de uma só vez — o equivalente a milhares de páginas mantidas simultaneamente "na sala".

Na prática, isso reescreve tarefas que antes eram inviáveis. Um processo de oitocentas páginas pode ser analisado de uma vez, sem fatiar, sem perder o fio entre o início e o fim. Você pode jogar o contrato inteiro, os anexos e o histórico de negociação juntos e pedir uma análise que cruze tudo. A IA deixa de ler por pedaços e passa a entender o caso como um todo. Para quem lida com autos volumosos, due diligence ou revisão contratual, esse é talvez o ganho de produtividade mais subestimado do ano. E ele já está disponível — não é promessa de futuro.

Mudança 3: a IA passou a conhecer você

A terceira mudança é mais silenciosa, mas talvez a mais profunda. As ferramentas ganharam memória persistente e resumos proativos. O Gemini, por exemplo, estreou um "resumo do dia" que cruza e-mail, agenda e tarefas e entrega, de manhã, um panorama do que importa. A memória faz a IA lembrar do seu estilo de redação, das suas preferências, do contexto recorrente do seu trabalho — sem você reexplicar tudo a cada conversa.

O que isso significa: a IA está deixando de ser uma ferramenta que você aciona e virando um assistente que acompanha. Bem configurada, ela conhece o padrão das suas peças, os pontos de atenção dos seus casos, o tom que você usa com cada tipo de cliente. É a diferença entre um estagiário que recomeça do zero todo dia e um que já trabalha com você há meses.

O que une as três — e por que método importa mais do que nunca

Repare no fio condutor. Agente que age, contexto que comporta tudo, memória que acompanha: as três mudanças apontam para o mesmo lugar. A IA está saindo do papel de "ajudante de redação" para o de "operadora de processos de trabalho". E aqui está a parte incômoda: quanto mais potente a ferramenta, mais perigoso usá-la sem método. Um agente que age sozinho com dados sigilosos, sem regras, não é produtividade — é risco profissional ampliado. A mesma lógica da soberania de dados que move o G7 vale para a sua mesa: poder sem controle é vulnerabilidade.

Por isso eu insisto tanto em uma coisa nas mentorias e treinamentos: a vantagem competitiva de 2026 não é ter acesso à melhor IA — todo mundo tem. É ter o método para usá-la com toda a potência e nenhum dos riscos. Saber o que delegar, o que verificar, o que jamais entregar a um agente, e como configurar tudo isso dentro do sigilo que a advocacia exige.

A IA sentou na mesa do G7 porque virou peça central do tabuleiro. A pergunta que fica não é se ela vai mudar o seu trabalho — é se você vai conduzir essa mudança ou ser conduzido por ela.

Sérgio Longo · OAB/PE 22.386 · Leia online e veja os outros artigos em sergiolongo.netlify.app/artigos