Todos os artigos

Dust, Grok Bot e Manus: o critério que decidiu uma implantação

Sérgio Longo13 de outubro de 20267 min de leitura

Numa implantação recente, a conversa travou num ponto que já vi travar em outros lugares. A pergunta da mesa era qual agente de IA adotar, e a lista de candidatos tinha nomes que impressionam em demonstração. Pedi para mudarmos a pergunta. Em vez de "qual é o mais poderoso", propus "o que se repete aqui toda semana e ninguém gosta de fazer". A resposta a essa segunda pergunta decidiu a escolha, e é dela que nasce a distinção que quero compartilhar.

Nas últimas semanas testei três ferramentas que o mercado chama de agentes: Dust, Grok Bot e Manus. Fiquei com uma. As outras duas não são ruins. Elas apenas não cabem na minha rotina, e esse critério, o encaixe na rotina, vale mais do que qualquer vídeo de lançamento. Há um segundo critério, que na advocacia não é opcional: a ferramenta precisa permitir que eu cumpra o que a OAB já recomenda para o uso de IA. Quando não permite, o problema deixa de ser de produtividade e passa a ser de ética profissional.

Os três, em resumo

Antes de dizer por que fiquei com um, vale ver o que cada um faz de melhor e onde cada um tropeça.

Três propostas diferentes. Nenhuma delas é "a IA". São formas distintas de delegar, e cada forma combina com um tipo de trabalho.

Por que fiquei com o Grok Bot

O que me conquistou não foi a inteligência do modelo. Foi o desenho da delegação. Eu mostro o caminho uma vez, ele repete, e o resultado volta para mim antes de sair. Esse ponto de controle é exatamente o que defendo há meses aqui, e é também o que a Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB pede: o conteúdo gerado por IA passa por revisão integral do advogado, que assegura a veracidade e a precisão antes de usar. A Turma de Ética da OAB/SP reforçou isso em abril, ao decidir que toda saída de IA deve ser revisada por completo antes de chegar a um processo. Um agente que para e espera a minha aprovação foi desenhado para esse dever. Um agente que entrega tudo pronto e segue em frente me obriga a construir esse controle por fora.

Na prática, entreguei a ele o que se repete. Acompanhar as publicações dos meus processos e me devolver um resumo diário com o que exige providência. Montar, toda segunda, o quadro de prazos da semana a partir do que entrou. Preparar a primeira versão dos relatórios periódicos que os clientes recebem. São tarefas com começo, meio e fim conhecidos, que tomavam horas de atenção e não exigiam juízo jurídico. Hoje elas chegam prontas para conferência, e a conferência leva minutos.

Repare no padrão: tarefa recorrente, resultado com formato fixo, aprovação humana no fim. Quando essas três condições existem, o agente paga a conta. Quando não existem, ele vira brinquedo caro.

Por que o Dust não faz sentido para mim

Aqui a resposta é curta e sem drama. O critério é o porte do time e da base de conhecimento. Eu seria a única pessoa da "equipe", e a base que o Dust organizaria eu já consulto de outro jeito. Se o seu escritório tem oito advogados alimentando a mesma pasta de modelos e pareceres, vale olhar, com um cuidado: a base que alimenta esses assistentes é feita de documentos de clientes, e a OAB pede especial atenção a dados que tornem o cliente identificável. Quem conecta o acervo inteiro a uma ferramenta precisa saber o que entra nele e com que finalidade. Se é você e uma estagiária, provavelmente não vale o trabalho.

Por que o Manus ficou de fora

Com o Manus a questão é outra, e para a advocacia ela é decisiva: previsibilidade. Em demonstração ele impressiona. Pede-se uma pesquisa, uma apresentação, um site, e ele entrega algo apresentável. O problema aparece quando a mesma tarefa precisa dar o mesmo tipo de resultado toda vez. Nos meus testes, pedidos parecidos geraram caminhos e entregas diferentes, e eu não conseguia prever de antemão nem o formato nem o esforço. A cobrança por créditos agrava isso, porque o próprio sistema não estima o custo de uma tarefa antes de executá-la.

É aqui que a ótica da OAB pesa mais. Quando a Ordem foi à Justiça neste mês contra uma empresa que produz minutas em escala, o que ela pediu foi supervisão humana "efetiva, verificável e auditável" e a preservação dos registros de geração e revisão de cada texto. Essa régua vale para o fornecedor, mas vale antes para mim. Se eu não consigo saber por que caminho o agente chegou ao resultado, nem reproduzir esse caminho, nem guardar um registro limpo do que ele fez e do que eu alterei, a minha supervisão não é verificável. Ela vira um ato de fé. Soma-se a isso a prudência com dados: a Recomendação da OAB é expressa ao pedir diligência na escolha do sistema e conferência da política de privacidade do fornecedor antes de qualquer documento de cliente entrar ali, e o episódio da exclusão de dados em agosto mostra por que essa conferência precisa vir antes, e não depois.

E há o detalhe mais prático de todos. Tudo o que eu pediria ao Manus eu consigo obter com ChatGPT ou Claude, usando um prompt estruturado, as fontes que eu mesmo escolhi e uma etapa de conferência. Com uma vantagem: eu sei o que vai sair, sei quanto vai custar e tenho o registro de cada passo.

As três perguntas antes de adotar qualquer agente

Dessa discussão na implantação ficou um roteiro que passei a usar com clientes e nas minhas mentorias. Antes de contratar qualquer ferramenta que se apresente como agente, faça três perguntas.

A primeira: o resultado se repete? Rode a mesma tarefa três vezes. Se o formato muda a cada rodada, a ferramenta não está pronta para o seu fluxo, por mais bonita que seja a demonstração.

A segunda: ela cabe numa tarefa que já existe toda semana? Agente bom resolve uma dor recorrente. Se você precisa inventar uma tarefa para justificar a assinatura, a ordem está invertida.

A terceira: sei onde ficam os meus dados, consigo mostrar o que a ferramenta fez e quem aprovou a versão final? Essa pergunta é a Recomendação da OAB traduzida para o balcão. Se a resposta para qualquer parte dela for "não sei", pare aí. Sigilo profissional não negocia com conveniência.

Quem responde bem às três não precisa de muita ferramenta. Precisa de método, e o método é o que faz uma ferramenta comum entregar um resultado confiável e defensável. Foi isso que decidiu a implantação, e é isso que decide a minha rotina.

E você, já testou algum desses três? Qual deles entrou na sua rotina de verdade?

Fontes

Nota de transparência: o texto final deste artigo foi feito por um humano, com auxílio de IA. Já a publicação (cards, arte e distribuição) foi executada integralmente por IA, sob minha orquestração. É o método que ensino, aplicado na prática.

Sérgio Longo · OAB/PE 22.386 · Leia online e veja os outros artigos em sergiolongo.netlify.app/artigos